sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Noite de Insônia e Palavras não Ditas

Naquela noite, tentei em vão dormir, revirava-me, tentava encontrar uma posição em que meus braços ficassem confortavelmente postos sobre o travesseiro, ou retos, estirados na cama, e nada. Na verdade o braço era uma desculpa para aquela que procurava insanamente motivos para a insônia, fingindo que não dormira apenas pela condição limitada do espaço físico.
Levantei-me, fui à cozinha, bebi um copo de água, que descia tão ferozmente que parecia sangrar dentro de mim, o coração palpitante e as mãos passavam lentamente pelos meus cabelos, parando em alguns cachos e voltando aos meus olhos que vez por outra deixavam um semblante escancarado de alguém que precisava dormir.
Voltei ao meu quarto, onde a solidão me apregoava um tom irônico, perguntas sussurravam tão em vão quanto a minha tentativa de sonhar lírios do campo, mas uma delas que não saia de mim era porque eu tinha o deixado ir embora, assim tão de repente e sem mover um das minhas mãos inúteis, simétricas, ardentes.
Talvez os galos já estivessem se preparando para acordar aqueles que sonharam e sorriram, que dormiram e não sonharam, que sonharam e choraram e aqueles que simplesmente como eu, tinham sonhado acordados. Embora não tenha conseguido cerrar os olhos já cansados de noites inteiras de insônia, consegui reproduzir em minha mente aquela última cena, que repetia tão lentamente e com o cheiro, a cor, o olhar com que realmente tinha acontecido e me parecia tão real que eu tentava fazer algo diferente do que eu fiz, aliás do que eu não fiz e poderia ter feito.
Ele entrou pela porta entreaberta, pegou em minhas mãos, aquelas inúteis, simétricas, ardentes e olhando em meus olhos, de um jeito que ninguém nunca havia olhado, como se pudesse transparecer o que ele sentia, com toda a carga de sentimentos, falou com o choro engasgado na úvula que iria partir, e eu o olhei com tanta naturalidade e perguntei por quanto tempo, ele, deixando escapar uma lágrima, disse-me que estava muito doente e faria um tratamento fora.
Aquelas mesmas mãos estremeceram e tentando não passar para ele que eu estava abatida, soltei um sorriso, e de um jeito espontâneo controlado, falei que ele iria sair dessa e o choro também engasgado na minha garganta, disse que tinha tarefa de casa para fazer e ele, sem jeito, pensando que eu não tinha ficado preocupada, ou não me importasse com ele, e quão distante a gente iria ficar um do outro, foi se afastando, e disse que me amava e que voltaria para me dizer uma coisa que ele nunca teve coragem. Saiu pela porta entreaberta e gritou ainda antes de chegar ao portão que nunca me esqueceria, eu, não falei nada.
Foi então que o sono não veio e a respiração ficou ofegante, a lembrança dele viva em mim, e o medo de perdê-lo. Ele viajou e eu não sei nem para onde, nem quando volta, se é que volta. Foi e sempre será meu melhor amigo, e o único amor que eu tive, embora eu nunca tenha contado para ninguém, também suspeito que ele, sinta tão colorida quanto eu, essa amizade e agora fico na esperança de voltar pra mim, pros meus braços e eu inútil, fracassada, não me perdoou por não ter ao menos falado que o amava também e que poderia esperar toda a eternidade, ou trocá-la por um beijo dele.

Gota do Universo

Caiu uma gota de sombra
No meu raio de luz
E a penumbra dividia-me
Escuro e claro,
Amargo e doce.

Caiu uma gota de luz
No meu raio de sombra
E tudo se fez samba,
Com um pouco de riso
Entre as gotas salgadas.
 
©2007 '' Por Elke di Barros